Há sinais de que a história se está a repetir.

Depois de alguns anos em que parecia existir uma maior aceitação da diversidade corporal, voltamos a assistir ao ressurgimento de um ideal antigo: o da magreza extrema. Desta vez, porém, com uma diferença inquietante. Nunca foi tão fácil transformar um padrão estético numa epidemia silenciosa.

As redes sociais deixaram de ser apenas um espaço de partilha para se tornarem um dos maiores veículos de influência sobre a forma como olhamos para o nosso corpo. Hoje, qualquer pessoa pode acumular milhares de seguidores e, apenas porque conseguiu perder peso, assumir o papel de especialista. O número na balança passou a valer mais do que a evidência científica. O algoritmo recompensa imagens de corpos cada vez mais magros, vídeos de “o que como num dia” com ingestões insuficientes e truques para enganar a fome. E os likes validam comportamentos que, há poucos anos, reconheceríamos como sinais de sofrimento.

O mais preocupante é quem está a assistir. As adolescentes são particularmente vulneráveis. Estão a construir a sua identidade, a descobrir quem são e onde se encaixam. Nesta fase, é fácil acreditar que a aparência é o principal caminho para a aceitação, para o sucesso ou para o reconhecimento. Quando a magreza é apresentada como sinónimo de disciplina, competência e valor pessoal, o risco de desenvolver uma relação disfuncional com a alimentação aumenta significativamente.

Entretanto, algo mudou também na forma como encaramos a fome.

Ter apetite passou quase a ser visto como uma falha de carácter. Multiplicam-se relatos de utilização de medicamentos para emagrecimento por pessoas sem indicação clínica, movidas apenas pela vontade de alcançar um determinado corpo. Importa dizer com clareza: estes fármacos representam um enorme avanço para muitas pessoas com obesidade e outras condições clínicas específicas. Mas a sua banalização para fins exclusivamente estéticos merece reflexão. Quando a saúde fica dependente de um medicamento para sustentar um ideal imposto pela sociedade, talvez o problema já não seja o corpo. Seja a cultura que o exige.

E depois há aquilo de que quase ninguém fala. Construir massa muscular nunca foi apenas uma questão estética. É uma questão de saúde. De autonomia. De sobrevivência.

A massa muscular protege-nos ao longo da vida, reduz o risco de quedas e fraturas, melhora o metabolismo, preserva a independência na velhice e constitui uma importante reserva durante situações de doença grave ou hospitalização. Um corpo excessivamente magro, privado dessa reserva, torna-se biologicamente mais vulnerável. A força não serve apenas para levantar pesos no ginásio; serve para recuperar quando a vida nos obriga a fazê-lo.

Também a saúde óssea paga um preço elevado quando a restrição alimentar se prolonga. Em muitas jovens, a perda de massa óssea começa muito antes da menopausa. Osteopenia, osteoporose, alterações hormonais, infertilidade, fadiga crónica e perturbações alimentares deixam de ser consequências raras para se tornarem uma realidade cada vez mais frequente.

Mas talvez exista uma consequência ainda mais silenciosa.

Quanto mais tempo uma mulher dedica a medir cada centímetro do seu corpo, menos tempo sobra para desenvolver outras partes da sua identidade. Não há problema nenhum em cuidar da aparência ou gostar de estética. O problema começa quando o nosso valor passa a depender quase exclusivamente disso. Uma sociedade que convence as mulheres de que o seu maior projeto deve ser diminuir o corpo acaba, muitas vezes, por diminuir também o espaço que ocupam no mundo.

Enquanto tantas raparigas aprendem a contar calorias, esconder a fome e perseguir um corpo impossível, perdem oportunidades de investir naquilo que realmente lhes dará liberdade: conhecimento, pensamento crítico, força física, independência financeira, competências, confiança e saúde.

Por isso, talvez seja tempo de mudarmos a conversa.

Em vez de ensinar meninas a serem cada vez mais pequenas, talvez devêssemos ensiná-las a serem mais fortes.

Mais fortes física e mentalmente. Mais difíceis de manipular por algoritmos, por tendências passageiras ou por quem lucra com a sua insegurança. Que aprendam a alimentar-se para viver melhor, não para ocupar menos espaço. Que construam músculo não porque fica bonito nas fotografias, mas porque lhes dará qualidade de vida durante décadas. Que saibam distinguir informação científica de marketing disfarçado de conselho. E que nunca esqueçam que o seu valor jamais poderá ser medido por um número na balança.

Precisamos de mulheres saudáveis.

Não apenas mulheres magras.