Durante muitos anos, o tratamento da obesidade foi reduzido a uma fórmula aparentemente simples: comer menos e mexer mais.

Mas quem acompanha pessoas com obesidade sabe que a realidade é bastante mais complexa.

A obesidade é uma doença crónica, multifatorial e recidivante. Não é apenas uma questão estética, nem uma consequência direta da falta de disciplina ou de força de vontade. É uma doença que envolve fatores genéticos, hormonais, metabólicos, ambientais, comportamentais e emocionais e que, por si só, aumenta o risco de desenvolver e agravar várias outras doenças, como diabetes tipo 2, hipertensão, doença cardiovascular, doença hepática e determinados tipos de cancro.

É neste contexto que surge o Mounjaro® (tirzepatida), um medicamento que veio revolucionar o tratamento da obesidade.

E acho importante dizê-lo sem medo: finalmente temos medicamentos com uma eficácia muito significativa no tratamento da obesidade.

A tirzepatida atua em duas vias hormonais envolvidas na regulação da glicemia e do apetite (GIP e GLP-1), ajudando a reduzir a fome, aumentar a saciedade e diminuir a ingestão alimentar. Os resultados dos ensaios clínicos são muito expressivos, permitindo perdas de peso que, em muitas pessoas, eram extremamente difíceis de alcançar apenas com as abordagens convencionais.

Mas há várias coisas que precisamos de compreender.

  1. Se deixar de tomar, o peso volta? Então é o famoso efeito ioiô?

Esta é uma das questões que mais ouço.

Antes de mais, precisamos de perceber uma coisa: a obesidade é uma doença crónica.

Quando uma pessoa deixa de tomar um medicamento para a hipertensão, por exemplo, a tensão arterial pode voltar a subir. Não dizemos que o medicamento provocou um efeito ioiô. Dizemos que deixou de existir o tratamento que ajudava a controlar a doença.

Na obesidade pode acontecer algo semelhante.

O Mounjaro ajuda a controlar mecanismos biológicos envolvidos na fome, na saciedade e na regulação do peso. Quando é suspenso, esses efeitos deixam de estar presentes e os mecanismos que favorecem a recuperação do peso podem voltar a manifestar-se.

Aliás, temos evidência científica bastante clara disso.

No ensaio clínico SURMOUNT-4, os participantes que suspenderam a tirzepatida após um período inicial de tratamento recuperaram, em média, cerca de 14% do peso durante o ano seguinte. Já os participantes que continuaram a medicação mantiveram e até aumentaram a perda de peso.

Portanto, não significa que o medicamento tenha provocado um efeito ioiô. Significa que, em muitas pessoas, a doença continua presente e, quando retiramos o tratamento, os mecanismos que a sustentam voltam a atuar.

  1. Porque é que temos tanta dificuldade em manter o peso perdido?

Há uma questão fisiológica muito interessante que ajuda a explicar este fenómeno.

Quando emagrecemos, o nosso organismo não fica simplesmente satisfeito por ter perdido peso. Pelo contrário: ativa mecanismos de defesa que tentam recuperar as reservas energéticas.

Um estudo publicado na revista Obesity estimou que, por cada quilograma de peso perdido, pode existir um aumento do impulso para comer equivalente a aproximadamente 100 kcal por dia.

Atenção: este é um valor estimado num estudo e não uma regra matemática que se aplique exatamente a todas as pessoas.

Mas ajuda-nos a perceber a dimensão da resposta biológica.

Imagina alguém que perdeu 30, 40 ou 50 kg. Estamos a falar de uma transformação corporal muito significativa, acompanhada por alterações nos sinais de fome e saciedade e por adaptações do gasto energético.

É natural que a pessoa sinta mais fome, tenha mais dificuldade em controlar o apetite e encontre mais obstáculos para manter o novo peso.

E é precisamente aqui que algumas pessoas precisam de manter a medicação a longo prazo, eventualmente durante toda a vida.

Não porque tenham falhado. Não porque não tenham aprendido a comer. Mas porque têm uma doença crónica que necessita de tratamento continuado.

Tal como acontece com outras doenças crónicas, a necessidade de medicação deve ser avaliada individualmente, tendo em conta os benefícios, os riscos e a resposta ao tratamento.

  1. E se a intenção for fazer a medicação durante algum tempo e depois parar?

Aqui entra uma parte que considero fundamental: o acompanhamento nutricional e comportamental.

Se a pessoa, em conjunto com o médico, tiver como objetivo suspender a medicação, é importante aproveitar o período em que a fome e o chamado ruído alimentar estão mais controlados.

O que quero dizer com isto?

Muitas pessoas com obesidade descrevem uma preocupação constante com a comida. Pensamentos recorrentes sobre o que vão comer, quando vão comer, vontade de petiscar, dificuldade em sentir saciedade ou uma sensação de fome que parece nunca desaparecer.

Quando a medicação ajuda a diminuir esse ruído, pode surgir uma oportunidade muito importante para trabalhar outras dimensões da relação com a alimentação.

É uma altura para:

  • Aprender a construir refeições completas, equilibradas e nutricionalmente adequadas.
  • Reconhecer os sinais de fome e saciedade.
  • Trabalhar a alimentação emocional e perceber que emoções, situações ou necessidades podem estar por detrás de determinados comportamentos alimentares.
  • Desenvolver estratégias de regulação emocional que não passem exclusivamente pela comida.
  • Criar uma rotina de exercício físico, incluindo treino de força.
  • Melhorar o sono, gerir o stress e construir hábitos que sejam sustentáveis.

Não se trata de aproveitar a medicação para comer o mínimo possível e perder o máximo de peso.

Trata-se de aproveitar esta oportunidade para cuidar da saúde e construir uma estrutura que ajude a proteger os resultados a longo prazo.

E é importante ter consciência de que, após a suspensão, a fome pode aumentar novamente. A transição deve ser acompanhada pelo médico, com um plano individualizado e sem assumir que a perda de peso ficará automaticamente estabilizada.

O organismo adapta-se à perda de peso e pode continuar a existir uma tendência biológica para recuperar parte dele. Não existe, contudo, um prazo cientificamente estabelecido de 2 ou 3 anos após o qual o novo peso passe automaticamente a ser o ponto de equilíbrio definitivo.

  1. Emagrecer não é apenas perder peso: atenção à massa muscular!

Este é um dos temas que considero mais importantes e que, infelizmente, nem sempre recebe a atenção necessária.

Quando existe uma perda de peso significativa, não perdemos exclusivamente gordura. Perdemos também alguma massa magra, onde se inclui a massa muscular.

E isto não é um problema exclusivo do Mounjaro.

Se uma pessoa perder 20 ou 30 kg através de uma dieta muito restritiva, sem exercício físico e sem uma alimentação nutricionalmente adequada, também poderá perder uma quantidade importante de massa muscular.

O que acontece com a tirzepatida é que a perda de peso pode ser muito expressiva e relativamente rápida. Além disso, a redução do apetite pode fazer com que algumas pessoas comam muito pouco, não atinjam as necessidades de proteína e acabem por não fornecer ao organismo os nutrientes de que precisa.

Num subestudo de composição corporal do ensaio SURMOUNT-1, aproximadamente 75% do peso perdido correspondeu a massa gorda e 25% a massa magra.

É um dado que merece a nossa atenção.

A perda excessiva de massa muscular pode comprometer:

  • A força e a capacidade funcional.
  • A saúde óssea e a proteção do esqueleto.
  • A recuperação após doenças ou períodos de imobilização.
  • A autonomia e a qualidade de vida, sobretudo com o avançar da idade.
  • A capacidade de manter um metabolismo e uma composição corporal saudáveis.

É por isso que não podemos olhar apenas para o número que aparece na balança.

Também precisamos de acompanhar a composição corporal, a força, a funcionalidade e a qualidade nutricional da alimentação.

  1. Queda de cabelo, flacidez, obstipação e carências nutricionais: o que podemos fazer?

A redução acentuada do apetite pode levar a uma diminuição muito significativa da ingestão alimentar.

E quando comemos pouco, não basta pensar nas calorias. Temos de pensar em tudo aquilo que podemos deixar de fornecer ao organismo.

É possível surgirem dificuldades em atingir as necessidades de proteína, fibra, vitaminas, minerais e outros nutrientes essenciais.

Entre as situações que merecem atenção estão:

  • Perda de massa muscular: sobretudo quando a perda de peso é rápida, a ingestão proteica é insuficiente e não existe treino de força.
  • Queda de cabelo: pode estar associada à perda de peso rápida, ao défice energético e a carências nutricionais, nomeadamente de proteína, ferro ou zinco, dependendo da situação individual.
  • Flacidez: pode tornar-se mais evidente após uma perda de peso expressiva, devido à redução do volume de gordura, à elasticidade da pele e à eventual perda de massa muscular.
  • Obstipação: pode resultar da redução da ingestão alimentar, da menor ingestão de fibra e água e também dos efeitos gastrointestinais do próprio medicamento. Investe em: mamão, kiwi, ameixa, água de ameixa, mucilagem de linhaça, sementes de chia, psílio, farelo de aveia, iogurtes, beterraba, abacate, óleo de coco e vegetais.
  • Carências nutricionais: quando a ingestão alimentar é insuficiente ou pouco variada, podem surgir défices de vitaminas e minerais.

É por isso que considero tão importante o acompanhamento nutricional durante o tratamento. Não basta ajudar a pessoa a emagrecer. Temos de garantir que continua a alimentar-se adequadamente.

  1. Recomendações nutricionais para quem está a fazer Mounjaro

Se estás a fazer tratamento com tirzepatida, há alguns cuidados que considero essenciais:

  1. Não deixes de comer só porque não tens fome.

A diminuição do apetite não significa que as necessidades nutricionais tenham desaparecido. Mesmo com refeições mais pequenas, é importante garantir uma ingestão alimentar adequada.

  1. Dá prioridade à proteína.

Inclui uma fonte de proteína nas principais refeições: ovos, peixe, carne, tofu, tempeh, leguminosas, iogurte ou outras alternativas adequadas à tua alimentação.

A quantidade deve ser ajustada às necessidades individuais, ao peso de referência, à composição corporal, à idade, à atividade física e à função renal.

  1. Não te esqueças dos vegetais, fruta e fibra.

Ajudam a fornecer vitaminas, minerais e fibra, fundamentais para a saúde intestinal e para prevenir a obstipação. Sopa, puré de legumes, arroz de vegetais… legumes e verduras cozinhados normalmente são melhor tolerados.

Aumenta a fibra progressivamente e adapta a escolha dos alimentos à tua tolerância gastrointestinal. Aposta em sementes, não ocupam volume nas refeições e ajudam o intestino.

  1. Hidrata-te ao longo do dia.

A ingestão adequada de água é particularmente importante, sobretudo quando existe obstipação, vómitos ou diarreia. Se houver perdas gastrointestinais importantes, pode ser necessário avaliar também os eletrólitos.

  1. Faz treino de força.

Não basta caminhar ou fazer exercício cardiovascular. O treino de resistência, adaptado à condição física de cada pessoa, é fundamental para preservar a massa muscular durante a perda de peso.

  1. Não elimines os hidratos de carbono nem as gorduras.

Uma alimentação equilibrada precisa de todos os macronutrientes. O objetivo não é restringir ainda mais a alimentação, mas garantir qualidade, variedade e adequação nutricional.

  1. Monitoriza possíveis carências.

A avaliação nutricional e, quando clinicamente indicado, a avaliação analítica permitem identificar precocemente eventuais défices e orientar uma suplementação individualizada. Não faz sentido suplementar tudo indiscriminadamente.

  1. Não ignores os sintomas gastrointestinais.

Náuseas, vómitos, diarreia e obstipação podem surgir durante o tratamento. Refeições mais pequenas, comer devagar e ajustar a quantidade de gordura de acordo com a tolerância podem ajudar. Sintomas persistentes ou intensos devem ser discutidos com o médico ou nutricionista.

Para terminar…

Quero deixar uma ideia muito clara: sou a favor de utilizar a ciência e os recursos que temos disponíveis para tratar a obesidade.

O Mounjaro é uma ferramenta terapêutica muito importante e pode mudar significativamente a vida de pessoas que, durante anos, lutaram contra uma doença que não se resolve simplesmente com força de vontade.

Mas não podemos transformar o tratamento numa corrida para ver quem perde mais peso, em menos tempo.

O objetivo não deve ser apenas emagrecer. Deve ser melhorar a saúde, preservar a massa muscular, prevenir carências nutricionais, melhorar a relação com a alimentação e conquistar qualidade de vida.

E há uma última questão que quero deixar clara: neste artigo estou a falar do tratamento da obesidade, com indicação clínica e acompanhamento adequado. Não estou a falar da utilização destes medicamentos por pessoas que procuram atingir um grau de magreza que seria insustentável sem a medicação. Esse é outro problema, com outras implicações, e merece uma reflexão própria.

Porque tratar a obesidade não é tornar alguém magro a qualquer custo. É tratar uma doença e cuidar da saúde da pessoa como um todo.